quinta-feira, 7 de agosto de 2008

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Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī
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Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?
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Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo - um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!
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Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.
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Não durmas,senta com teus pares
A escuridão oculta a água da vida.
Não te apresses, vasculha o escuro.
Os viajantes noturnos estão plenos de luz;
não te afastes pois da companhia de teus pares.
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Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.
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A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.
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Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.
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Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.
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Ontem à noite, confidencialmente, eu disse a um velho sábio:
- Não me esconda nada dos segredos do mundo!
Muito docemente, ele me disse ao ouvido:
- Chut! Podemos compreender, mas não exprimir!
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Ele chegou... Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?
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Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto.
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Sou medido, ao medir teu amor.
Sou levado, ao levar teu amor.
Não posso comer de dia nem dormir de noite.
Para ser teu amigo
Tornei-me meu próprio inimigo.
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Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.
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Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!
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Não temos nada além do amor.
Não temos antes, princípio nem fim.
A alma grita e geme dentro de nós:
- Louco, é assim o amor.
Colhe-me, colhe-me, colhe-me!
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À noite, pedi a um velho sábio
que me contasse todos os segredos do universo.
Ele murmurou lentamente em meu ouvido:
- Isto não se pode dizer, isto se aprende.
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A fé da religião do Amor é diferente.
A embriaguez do vinho do Amor é diferente.
Tudo que aprendes na escola é diferente.
Tudo que aprendes do Amor é diferente.
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- Vem ao jardim na primavera, disseste.
- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?
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Túmulo de Rumi em Konya, Turquia

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Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (مولانا جلال الدین محمد رومی), também conhecido como Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Balkhī (محمد بلخى), ou ainda apenas Rumi, (30 de setembro de 1207–17 de Dezembro de 1273), foi um poeta, jurista e teólogo muçulmano persa do século XIII. Seu nome significa literalmente "Majestade da Religião"; Jalal significa "majestade" e Din significa "religião". Rumi é, também, um nome descritivo cujo significado é "o romano", pois ele viveu grande parte da sua vida na Anatólia,
que era parte do Império Bizantino dois séculos antes.
Ele nasceu em Balkh (no hoje Afeganistão, então parte da Pérsia), a cidade natal da família de seu pai. Esta cidade estava nesta época sob a esfera de influência
da região de Khorasan e era parte do Império Khwarezmio.
Ele viveu a maior parte de sua vida sob o Sultanato de Rum, onde produziu a maior parte de seus trabalhos e morreu em 1273 CE. Foi enterrado em Konya e seu túmulo tornou-se um lugar de peregrinação. Após sua morte, seus seguidores e seu filho Sultan Walad fundaram a Ordem Sufi Mawlawīyah, também conhecida como ordem dos Dervishes girantes, famosos por sua dança Sufi conhecida como cerimônia sema.
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Omar Ibn Ibrahim El Khayyam
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Olha com indulgência aqueles que se embriagam;
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.
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Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.
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Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.
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Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?
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É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã... que sabes do amanhã?
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Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.
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Na sombra azulada do jardim
o ar da primavera renova as rosas
e ilumina os meigos olhos da minha amada.
Ontem, amanhã... é tão grande o prazer agora.
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Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber desta taça
e esquecer a nossa incurável ignorância.
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É inútil te afligires por teres pecado;
também é inútil a tua contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.
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O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.
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Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir.
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Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?
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Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.
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Olha, um dia a alma deixará o teu corpo
e ficarás por trás do véu, entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto não chega a hora,
procura ser feliz. Para onde irás depois?
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Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.
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Aquele que criou o Universo e as estrelas
exagerou quando inventou a dor.
Lábios vermelhos como rubis, cabelos perfumados,
quantos sois no mundo?
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Sono sobre a terra, sono debaixo da terra.
Sobre a terra, sob a terra: homens deitados.
Nada em toda a parte. Deserto.
Homens chegam, outros partem.
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Enquanto o rouxinol lhe entoava um hino,
murchou a bela rosa por causa do vento sul.
Lamentaremos por ela ou por nós?
Quando morrermos, outra rosa desabrochará.
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Se não tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.
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Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.
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Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo
debaixo da terra, sem amigos, sem mulheres.
Confio-te um grande segredo:
As tulipas murchas não reflorescem mais.
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O bem e o mal se entrelaçam no mundo.
Não agradeças ao Céu
pela sorte que te coube, nem o acuses:
Ele é indiferente.
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Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.
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Vai com prudência, viajante.
A estrada é perigosa, a adaga do destino
é acerada. Não colhas as amêndoas doces,
são venenosas.
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Ouve o que a Sabedoria diz todos os dias:
A vida é breve.
Não te esqueças, não és como certas plantas
que rebrotam depois de cortadas.
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Mestres e sábios morreram
sem se entenderem sobre o Ser e o Não Ser.
Nós, ignorantes, vamos apanhar as tenras uvas;
que os grandes homens se regalem com as passas.
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O meu nascimento não aumentou o Universo,
nem a minha morte lhe fanará o esplendor.
Ninguém me dirá por quê vim ao mundo,
ou porquê um dia irei embora.
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Iremos nos perder na estrada do amor,
e o destino nos pisará, indiferente.
Vem, menina, taça encantada, dá-me de beber
em teus lábios, antes que eu me torne pó.
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Não te inquietes, a vida é como um suspiro.
As cinzas de Djenchid e de Kai-Kobad volteiam
na poeira vermelha que tolda o ar.
O Universo é uma miragem, a vida é um sonho.
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Não temo a morte. prefiro esse ato inelutável
ao outro que me foi imposto no dia em que nasci.
O que é a vida, afinal? Um bem que me confiaram
sem me consultarem e que entregarei com indiferença.
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Um pouco de pão, um pouco de água,
a sombra de uma árvore, e o teu olhar;
nenhum sultão é mais feliz do que eu,
e nenhum mendigo é mais triste.
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Falam de um Criador...
e Ele deu forma às criaturas para destruí-las?
Por que são feias? Por que são belas?
Quem é o responsável? Não compreendo nada.
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Todos pretendem andar pelo Caminho do Saber.
Uns o procuram, outros afirmam tê-lo encontrado.
Um dia uma grande voz dirá: Não há caminho,
nem atalho.
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No turbilhão da vida são felizes aqueles
que presumindo saber tudo não se instruem.
Fui buscar os segredos do Universo e voltei
invejando os cegos que encontrei pelo caminho.
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O que realmente possuo?
O que restará de mim depois da morte?
É tão breve a vida, uma fogueira:
Chamas, e depois, cinzas.
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Não pedi para nascer. Recebo, sem espanto ou ira,
o que a vida me entrega. Um dia hei de partir;
não me importa saber qual o motivo
da minha misteriosa passagem pelo mundo.
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O amor que não consome, não é amor;
a brasa tem o mesmo calor de uma fogueira?
Aquele que ama, pelas noites e dias,
vai se consumindo no prazer e na dor.
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Na terra cheia de cores alguém caminha:
não é muçulmano, não é infiel, nem pobre, nem rico;
não acredita na Verdade e não afirma nada.
Quem é esse, intrépido e triste?
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Quando eu não mais viver, não haverá mais rosas,
nem lábios vermelhos, nem vinhos perfumados;
não haverá auroras, nem amores, nem penas:
o Universo terá acabado, pois ele é o meu pensamento.
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Vai um cavaleiro pelas sombras do entardecer.
Aonde irá, por serras e por vales?
e onde estará deitado amanhã?
Sobre a terra, ou debaixo dela?
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Mais outra aurora. Como em todas as manhãs,
deparo a beleza do mundo, e não posso agradecer:
há tantas rosas, tantos lábios. Vem minha amiga,
pousa o teu alaúde, os pássaros estão cantando.
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Omar Ibn Ibrahim El Khayyam nasceu em Nichapur, na Pérsia, o atual Irã, em 1040 e morreu nessa mesma cidade em 1120.
Khayyam significa, em persa, fabricante de tendas; ele adotou esse nome em memória do pai que era fabricante de tendas.
Além de poeta Omar Khayyam foi matemático e astrônomo. Dos seu livros de ciência chegaram até nós o Tratado de Algumas Dificuldades das Definições de Euclides e as Demonstrações dos problemas de Álgebra. Em 1074, diretor do Observatório de Merv, fez a reforma do calendário muçulmano.
Rubaiyat é o plural da palavra persa rubai, e quer dizer quadras, quartetos. No rubai, o primeiro, o segundo e o quarto versos são rimados, o terceiro é branco.

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http://www.alfredo-braga.pro.br/poesia/rubaiyat.html

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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

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Cassiano Ricardo
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Ficaram-me as penas
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O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
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Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.
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A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
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Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.
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A física do susto
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O espelho caiu a parede.
Caiu com ele o meu rosto.
Com o meu rosto a minha sede.
Com a minha sede eu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
no espelho caído, o meu rosto.
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A Graça Triste
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Só me resta agora
Esta graça triste
De te haver esperado
Adormecer primeiro.
Ouço agora o rumor
Das raízes da noite,
Também o das formigas
Imensas, numerosas,
Que estão, todas, corroendo
As rosas e as espigas.
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Sou um ramo seco
Onde duas palavras
Gorjeiam. Mais nada.
E sei que já não ouves
Estas vãs palavras.
Um universo espesso
Dói em mim com raízes
De tristeza e alegria.
Mas só lhe vejo a face
Da noite e a do dia.
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Não te dei o desgosto
De ter partido antes.
Não te gelei o lábio
Com o frio do meu rosto.
O destino foi sábio:
Entre a dor de quem parte
E a maior - de quem fica -
Deu-me a que, por mais longa,
Eu não quisera dar-te.
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Que me importa saber
Se por trás das estrelas
haverá outros mundos
Ou se cada uma delas
É uma luz ou um charco?
O universo, em arco,
Cintila, alto e complexo.
E em meio disso tudo
E de todos os sóis,
Diurnos, ou noturnos,
Só uma coisa existe.
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É esta graça triste
De te haver esperado
Adormecer primeiro.
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É uma lápide negra
Sobre a qual, dia e noite,
Brilha uma chama verde.
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A Medusa de Fogo
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A simples bulha surda
Do meu coração batendo
Poderá te acordar.
Mesmo a penugem da lua
Que cai sobre o ombro nu
Das árvores, tão de leve,
Poderá te acordar.
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A simples caída da bolha
D'água sobre a folha,
Por ser fria como a neve,
Poderá te acordar.
Só porque a rosa lembra
Um grito vermelho,
Retiro-a de diante do espelho
Porque - de tão rubra -
Poderá te acordar.
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E se nasce a manhã
Calço-lhe logo pés de lã,
Porque ela, com seus pássaros,
Poderá te acordar.
Mesmo o meu maior silêncio,
O meu mudo pé-ante-pé,
De tão mudo que é,
Não irá te acordar?
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Ó medusa de fogo,
Conserva-te dormida.
Com o teu fogo ruivo e meu,
Qual monstruosa ferida.
Como data esquecida.
Como aranha escondida
Num ângulo da parede.
Como rima água-marinha
Que morreu de sede.
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E eu serei tão breve
Que, um dia, deixarei
Também, até de respirar,
Para não te acordar.
ó medusa de fogo,
Dormida sob a neve!
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A Rua
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Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo.
É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
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A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.
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Cassiano Ricardo Leite, nasceu em São João dos Campos (SP), em 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1974. Estudou Direito em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde diplomou-se em 1917. Retorna a São Paulo, dedicando-se ao jornalismo, à administração pública e à política. Com Menotti del Picchia e Plínio Salgado, funda o Movimento Verde-amarelo, participando da corrente nacionalista do Modernismo brasileiro. Em 1937, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. OBRAS Poesia: Dentro da noite (1915); A Frauta de Pã (1917); Vamos caçar papagaios (1926); Martim-Cererê ou O Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis (1928); O sangue das horas (1943); Um dia depois do outro (1947); Jeremias sem-chorar (1963); Os sobreviventes (1971).
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terça-feira, 5 de agosto de 2008

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Meditação da Madrugada
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Em meio a esse mundo complexo, podemos encontrar
clareza e simplicidade, quando descobrimos
que a qualidade que fazemos nascer do coração
é o que mais importa. O poeta
zen Ryokan sintetizou tudo isso ao dizer:
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A chuva cessou, as nuvens se afastaram
e o céu voltou a ser límpido.
Se o teu coração é puro, então tudo no teu mundo é puro...
E a lua e as flores te guiarão ao longo do Caminho.
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Existem muitos caminhos para subir a montanha
e cada um de nós deve escolher a prática que sentirmos
verdadeira para o nosso coração.
O poeta Rumi descreve esses caminhos:
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Alguns trabalham e enriquecem;
outros trabalham e continuam pobres.
A uns, o casamento enche de energia;
a outros, drena-os.
Não confies nos caminhos: eles mudam.
Os métodos vão para lá e para cá como o rabo do jumento.
Acrescenta sempre, a qualquer sentença,
a cláusula de gratidão: " Se Deus quiser"
e vai em frente, vai em frente...
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Oscar Wilde escreveu: " O coração foi feito para ser partido".
À medida que nos curamos por meio da meditação, nosso coração
se parte e se abre para sentir com plenitude.
Um poema de Wendell Berry oferece uma
bela ilustração:
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Entro no bosque e me sento em silêncio.
Minha agitação se desvanece,
como os círculos de uma pedra n'água.
Meus fardos estão onde eu os deixei,
adormecidos como o gado no curral...
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Aquilo que temo, surge, então,
e vivo, por um instante, no seu olhar.
O que temo nele o abandona
e o medo dele me abandona.
Ele canta e eu ouço o seu cantar.
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A mente é capaz de fazer praticamente tudo,
como alternar raiva com bondade.
O grande poeta místico Kabir pergunta:
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Amigo, dize-me o que fazer com este mundo
ao qual me prendo, prisioneiro do seu giro.
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Renunciei às vestes e cubro o meu corpo com uma túnica,
mas certo dia notei a perfeição da sua trama.
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Troquei-a por um simples saco de aniagem, mas ainda
o atiro, com elegância, sobre o ombro esquerdo.
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Refreei meu apetite sexual, mas agora
descubro o quanto estou faminto.
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Renunciei à raiva, mas agora
percebo a avidez que me acompanha o dia todo.
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Lutei muito para dissipar a minha avidez
e agora sinto orgulho de mim mesmo.
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Quando resolve romper seus laços com o mundo,
a mente continua a se prender a alguma coisa.
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Ao dar o devido valor aos ciclos da vida, honramos
a lei natural do universo no Tao ou o dharma
da nossa própria vida.
O poeta Wendell Berry fala disso em seu poema
" A lei que casa todas as coisas":
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A nuvem é livre
apenas para ir com o vento.
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A chuva é livre
apenas para cair.
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A água é livre
apenas para juntar suas gotas,
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seguir seu curso descendente
e elevar-se no ar.
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Na lei há repouso
se amas a lei,
se a obedecer cantando
como a água ao cair.
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Poemas da Madrugada
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Eugénio de Andrade
(1923 - 2005)
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Adeus
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Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
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Adeus
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Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
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Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
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Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
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Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
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E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
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Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
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Adeus.
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Ainda sabemos cantar
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Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.
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Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.
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Algumas Reflexões Sobre a Mulher
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Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.
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Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.
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Na vulva sombria
é onde fazem o lume: ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.
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Nos olhos,
o relâmpago negro do frio.
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Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.
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O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.
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Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.
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Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.
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É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.
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São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.
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Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.
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Sê tu a palavra
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1.Sê tu a palavra,
branca rosa brava.
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2.Só o desejo é matinal.
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3.Poupar o coração
é permitir à mortec
oroar-se de alegria.
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4.Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.
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5.Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.
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6.Da chama à espada
o caminho é solitário.
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7.Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?
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As Mãos e os Frutos
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Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
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Retrato Ardente
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No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
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Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
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Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
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Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
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O Silêncio
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Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
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e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
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quando azuis irrompem
os teus olhos
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e procuram
nos meus navegação segura,
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é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
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pelo silêncio fascinadas.
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É Urgente o Amor
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É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
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É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
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É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
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Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
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Nem sempre o corpo se parece
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Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro cante na neve.
Há um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de lábios, digo.
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Pequena elegia de setembro
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Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
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Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
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Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
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Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo, medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
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Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
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Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
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Eugénio de Andrade, poeta e escritor. Nasceu na Póvoa da Atalaia, Concelho do Fundão- Portugal. Desde cedo se dedicou à poesia, alcançando grande notoriedade com livros como As Mãos e os Frutos (1948) e Os Amantes sem Dinheiro (1950). Para além da criação poética original, Eugénio de Andrade é ainda autor de traduções e recriações em português de obras de Safo, Mariana Alcoforado, Federico García Lorca, Yannis Ritsos, René Char, etc., além das várias antologias temáticas da poesia e da terra portuguesas. Apesar de avesso à vida pública, a importância da sua obra tem sido reconhecida através da atribuição de vários prémios e condecorações. Assim, foi-lhe atribuído pelo Governo português o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada (1982) e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1988). Também o Município do Porto quis distinguir o poeta, atribuindo-lhe a Medalha de Mérito (1985) e a Medalha de Honra (1989) da Cidade. É membro da Academia Mallarmé (Paris) e membro fundador da Academia Internacional Mihai Eminescu (Roménia). Foi agraciado com o Prémio Camões em 2001. Algumas das suas obras são: As Palavras Interditas, Até Amanhã, Coração do Dia e Mar de Setembro.
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"O vírus do amor ao livro é incurável, e eu procuro inocular esse vírus no maior número possível de pessoas."
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José Mindlin - Bibliófilo e escritor brasileiro
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"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
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Nelson Rodrigues
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Paulino Vergetti Neto
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Entre Moradas
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Moro entre o corpo e a alma
e em mim nada se espalha
se eu não quiser.
Domo o meu olhar e vejo estrelas
e sou na réstia escura a brincadeira
e tenho comigo tantos desejados sóis.
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Durmo ao meio dia a ver a lua
e sonho quando fecho as portas
e pelas janelas semi-mortas vou às ruas.
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Festejo o medo com a coragem alheia
e no mar seco sou baleia
e no céu poluído viro um pássaro.
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Moro entre um beijo e um abraço
e se meu corpo peca,
minha alma renasce
e se o mar me leva,
eu alegremente volto e fico.
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O último abraço
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Abraça-me, talvez tu me aches próximo
do teu distante olhar
e de tão vaga lembrança.
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Meu olho fixa-te descontente
e sabe lá Deus se a gente...
algum dia se amou de verdade.
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Sou hoje a esperança da redescoberta
e se tudo nos foi longe,
hoje há em mim muita pressa
de encontrar-me noutros braços
e, doravante...
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A alma do outro
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D’alva e lúcida luz dá-me o teu beijo
entre os olhares dos lábios rebeijados
e não morra fora de nós qualquer abraço
que não nos faça pecar frente aos desejos.
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Quando o meu coração olha o teu,
é como se escrevesse algum recado
e dissesse a ti sem medo que, apaixonado,
ando a ceder tudo o que em ti amo.
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Devolveste em um manso aperto de mão
tudo o que luze em meu coração
pelo teu perdidamente apaixonado.
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Amo-te individualmente farto
e entre nossos beijos e nossos abraços,
eis que minh’alma adora amar a tua.
amar e de novo amar com o peito em festa!
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Paulino Vergetti Neto diz-se um poeta apaixonado pela vida. Nasceu em Alagoas, na cidade de União dos Palmares.Casado, tem dois filhos. Graduação em Medicina; Pós-graduação em Oncologia Clínica
( INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER -RIO DE JANEIRO);
Língua Portuguesa e Literatura brasileira pela UNICID (UNIVERSIDADE CIDADE DE SÃO PAULO) Escritor, possui 34 livros publicados nos mais diversos gêneros literários. Atualmente reside em Maceió, onde exerce a profissão de Médico e escreve a sua literatura. Contribui como articulista para vários jornais em seu Estado, semanalmente, além de uma revista mensal. É membro do PEN CLUB do Brasil, Academia Maceioense de Letras, Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Academia Alagoana de Cultura,etc.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

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Delores Pires
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Delores Pires nasceu em Criciúma - SC, em 1947, tendo se radicado no interior do Paraná desde menino. A partir de 1975, adotou Curitiba como sua cidade, onde se formou em Letras pela PUC. Mestre em haicai pela PUC—PR, escritor, haicaísta. Especializado nesta modalidade poética - o haicai - mantém vasta bibliografia a respeito do tema, e livros publicados como "Crepúsculo", "Vôo", "Criação", "Outono", "Caderno de Viagem", "Estações", "Paisagem Itinerante", "Haicais Natalinos", "Clair de Lune/Luar", "Pétalas de Ipê", "Passeio ao Luar", "Piscadas de Sol", "Tapete de Folhas" e "Flor de Café" e "Garoa de Outono". Ministra cursos práticos, palestras, oficinas e aulas sobre esta forma fixa. Dispõe, ainda, de sistema de impressão e distribuição de suas obras, sob consulta e encomenda prévias. A partir de 21 de setembro de 2001 encontra-se disponibilizado seu trabalho haicaístico, na obra "O Livro dos Haicais", que reúne os dez primeiros livros dessa área, publicados até então, além de uma tradução francesa
de 90 haicais de trinta haicaístas japoneses
do Período Tokugawa (1603-1867).
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Crepúsculo
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Luz de fim do dia.
E a tua imagem flutua...
Vaga nostalgia!
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Bambu
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Pendido, tristonho,
na touça, leve, balouça,
à pesca de um sonho...
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Missão
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Paulatinamente
o professor dia a dia
vai moldando vidas...
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Esperança
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A folhinha verde
insistindo pela vida
traz a primavera.
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Poema da Madrugada
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Cosmogonia
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No acme do encantamento,
Na efervescência do ser,
Pulsa o coração da mulher
E abre, fremente, a janela.
Airosa está a noite,
Cúpida, etérea e bela.
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Cosmonauta nesse universo
De estrelas, sol e lua,
Solta os grilhões do alcácer
E abre, feliz, a janela.
Alma leve, livre e nua,
Fita o céu, olha a rua.
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E a rua é o desalento,
Desprovida de dulçor,
Bruma densa e sem vento,
Nos caminhos, desamor.
Fita o céu, olha a rua
A mulher, leve e nua.
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Céu, sonho, seu amor
Ardente, fecundo, fagueiro,
Luz que alumia a rua,
Porto, cais e veleiro,
Do coração cosmogonia,
Estrela, sol e lua...
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Sylvia Narriman Barroso
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domingo, 3 de agosto de 2008

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Palavras de Saint - Exupéry
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Com amor e carinho, dedico essa página
aos meus filhos Sávio, Saulo,
Rui Filho e Lívia.
São palavras leves e cheias
de sabedoria.
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As tempestades, a bruma, a neve, muitas vezes essas coisas
o incomodarão. Pense então em todos os que conheceram isso antes
de você e diga assim: o que eles fizeram eu também posso fazer.
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Construiste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas
as saídas para a luz. Ficaste enroscado em tua segurança burguesa, em tuas
rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde
proteção contra os ventos, e as marés, e as estrelas.
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Ninguém te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo.
Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá
despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo
que talvez te habitassem.
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Lá fora as montanhas estão mergulhadas nas trevas, mas não são
mais montanhas. São potências invisíveis das quais é preciso
calcular a aproximação.
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E nos sentimos perdidos no espaço interplanetário, entre cem planetas
inacessíveis, à procura do único planeta verdadeiro, do nosso, do único planeta
onde estavam nossas paisagens familiares, nossas casas amigas,
nossas ternuras...
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No centro do perigo o homem conserva suas inquietações.
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As necessidades que um ofício impõe transformam e enriquecem o mundo.
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A vida nos separa talvez dos companheiros, e nos impede de
pensar muito nisso. Eles estão em algum lugar, não se sabe bem onde,
silenciosos e esquecidos...
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Assim vai a vida. A princípio, enriquecemos; plantamos durante
anos, mas os anos chegam em que o tempo destrói esse trabalho,
arranca essas árvores. Um a um, os companheiros nos retiram sua
sombra. E aos nossos lutos mistura-se então a mágoa secreta de envelhecer.
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A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens;
só há um luxo verdadeiro: o das relações humanas.
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Trabalhando só pelos bens materiais construímos nós mesmos
nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitários, com nossa moeda
de cinza que não pode ser trocada por coisa alguma
que valha a pena viver.
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Se procuro entre minhas lembranças as que me deixaram um gosto durável,
se faço o balanço das horas que valeram a pena, certamente só
encontro aquelas que nenhuma fortuna do mundo ter-me-ia
presenteado. Não se compra a amizade de um Mermoz, de um
companheiro a quem estamos ligados para sempre pelas
provas sofridas juntos.
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Esta noite de vôo e suas mil estrelas, esta serenidade, esta soberania
de algumas horas, o dinheiro não compra.
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Esta face nova do mundo depois de uma etapa difícil, estas árvores,
estas flores, estas mulheres, estes sorrisos docemente
coloridos pela vida a que regressamos de madrugada, este
mundo de pequenas coisas que nos recompensam,
o dinheiro não compra.
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O homem sente-se envolvido em uma espécie de acidente cósmico.
Não há mais refúgio.
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O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre
o mesmo passo que se recomeça...
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Ser homem é precisamente ser responsável. É experimentar vergonha em face
de uma miséria que não parece depender de si. É ter orgulho
de uma vitória dos companheiros. É sentir, colocando a sua
pedra, que contribui para construir o mundo.
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Em um mundo em que a vida se une tanto à vida, em que as flores amam
as flores no leito dos ventos, em que o cisne conhece todos os
cisnes, só os homens constroem a sua solidão.
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Entre um e outro homem o espírito reserva um estranho espaço.
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Como é estreito o cenário em que se representa a peça dos ódios,
das amizades, das alegrias humanas!
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De onte foram tirar os homens esse gosto de eternidade, vivendo
ao acaso, como vivem, sobre uma lava ainda morna, já
ameaçados pelas neves ou pelas areias do futuro?
Suas civilizações são enfeites bem frágeis: um vulcão
as apaga, ou um mar novo, ou um vento de areia.
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Esquecemos que a vida, aqui como em toda parte, é um luxo,
que em parte nenhuma a terra é bem profunda
sob os passos do homem.
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Habitamos um planeta errante.


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Ler é um direito fundamental do cidadão
e principal via de acessoa ao conhecimento e à cultura.
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O Prazer de Ler 1
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Sonho por vezes que, quando o dia do juízo chegar e os
grandes conquistadores, advogados e estadistas vierem
receber as suas recompensas – coroas, louros, nomes
gravados indelevelmente em mármore imperecível
-o Todo-Poderoso se voltará para S. Pedro e dirá,
não sem uma certa inveja, quando nos vir chegar
com os nossos livros debaixo dos braços:
— Olhai, estes não precisam de recompensa.
Nada temos para lhes dar. Eles amaram a leitura .
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Virginia Woolf ( 1882-1941)
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O Prazer de Ler 2
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Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler. E os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.Deve haver certamente outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.
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AS PESSOAS QUE EU MAIS ADMIRO SÃO AQUELAS QUE NUNCA ACABAM...
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José de Almada Negreiros
(Trindade, S. Tomé, 7 de Abril de 1893 — Lisboa, 15 de Junho de 1970 )
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O Prazer de Ler 3
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Não é tarefa fácil criar este "desejo" pela leitura, sei disso. E nem acho justo tentarmos "converter" todo mundo para este universo de papel, letras, histórias e idéias. Afinal, uma coisa que aprendi muito bem é que, o que é bom pra mim, pode não ser bom para o outro. Mas, como eu conheço bem a realidade de nosso país, que nosso ensino público é péssimo e que temos professores despreparados formando brasileiros completamente alienados, acho que devemos cometer tal "atrocidade". Devemos sim insistir que nosso povo tenha o prazer de ler. Pois assim, através da leitura, poderão se descobrir, conhecer a história da humanidade, saber como as coisas funcionam, saber mais de si mesmos e do mundo que se encontra em sua volta. E todos nós, professores ou não, somos responsáveis pela educação, pela conscientização, por batalhar por uma sociedade cada vez melhor. Portanto, se você é professor, não "mate" o PRAZER DE LER de seus alunos, dê livros fáceis de ler antes dos "difíceis", pergunte antes o que gostariam de ler e nunca, jamais, force qualquer barra. Você tem um grande instrumento em mãos que é o ofício de ENSINAR, portanto, não desperdice isso. Afinal, cada aluno "convertido" para a ARTE DA LEITURA é um potencial cidadão e agente transformador de si mesmo e do mundo que se encontra a sua volta.
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Fabrício D. Viana (www.fabricioviana.hpg.com.br) .
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O Prazer de Ler 4
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Não se pode ensinar as delícias do amor com aulas de anatomia e fisiologia dos órgãos sexuais. Se assim fosse, o livro "Cântico dos Cânticos", que está na Bíblia, nunca teria sido escrito. Não se pode ensinar o prazer da leitura com aulas sobre as ciências da linguagem. O conhecimento da gramática e das ciências da interpretação não faz poetas. Noel Rosa sabia disso e cantou: "Samba não se aprende no colégio...".
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Rubem Alves ( Como ensinar o prazer de ler )
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O prazer de Ler 5
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Independente da classe social, muito mais do que um hábito, a leitura deve ser estimulada. O cidadão brasileiro precisa ter oportunidades de acesso à informação, ao conhecimento e ao entretenimento através da leitura.Hoje, no Brasil, o livro ainda é muito caro, nem todos têm uma condição financeira para adquiri-lo, ou mesmo uma biblioteca perto de sua casa. As pessoas necessitam de ler, de ler com prazer, de gostar do que lê. E o prazer de ler está relacionado com a beleza. Não há prazer sem a percepção do belo. Beleza, na literatura, não são apenas edições caprichadas, ilustrações encantadoras ou mesmo uma história bonita. Vai além disso. Quem aprende o prazer de ler é capaz de viver o que o autor escreve, de criar expectativas, unir conhecimentos, provocar mudanças, oportunidades, viajar, pensar, opinar, sonhar, acreditar.Nossa sociedade precisa acompanhar as transformações de nosso tempo. E um caminho seguro para isto é a leitura. As pessoas podem ler para obter uma informação de caráter geral, para aprender um pouco mais e até para ampliar os conhecimentos de que já dispõem. Podem ler por prazer, ou em busca de uma resposta, ou propósito. Mas principalmente é preciso reconhecer que: Ler é trocar. Ler não é só receber.
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Marcélia de Deus - mardideus@yahoo.com.br
(CEMMA- Centro Educacional Maria Madalena Friche Passos - 5ª a 8ª séries)
Brumadinho, MG

sábado, 2 de agosto de 2008

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Canção Remota
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E estou aqui meu amor
na beira da minha vida
não distante do jardim
que volta da primavera
em busca daquela flor
deixada dentro de mim.
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É meu anjo debruçado
na janela de uma rosa
que o destino ofereceu
ao voltar da primavera
em busca daquela flor
que a tua vida me deu.
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Liga não... Viver assim
é um cântico de flauta
quando bate o coração.
E estar aqui à tua volta
é somente o estar aqui
para ouvir uma canção...
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Afonso Estebanez
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Epitáfio
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As ondas nascem,
as ondas morrem,
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num só minuto;
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mas o pensamento
pode eternizá-las.
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As rosas nascem,
as rosas morrem;
mas o pensamento
pode concebê-las imortais.
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Por isso eu vos tirei domar,
ó vagas!
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Por isso eu vos tirei do lodo,
ó rosas!
Porém vos fiz etéreas e flamantes,
para brilhardes sobre a poeira em que me tornarei.
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Péricles Eugênio da Silva Ramos
in "Lamentação Floral"(1919-1992)
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Simbólica
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Aquém da grade
do jardim modesto,
a giesta acena,
braços floridos.
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O aroma invade
o gracioso gesto
e o restringe
a estreitos laços
preferidos.
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Transeunte sou.
Entre a grade e o gesto
fica a dúvida exata.
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Apresso os passos,
esqueço o tempo.
O resto é cor, sem sentido,
de longínqua data.
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Elias Leite — Caminho de Versos
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Velha Interrogação
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Passa a vida? Continua…
Porque o tempo é que flutua,
como um rio de veludo,
sobre todos, sobre tudo...
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À sua imagem sonhamos:
de onde vimos? aonde vamos?
E o destino indiferente
vai impedindo a torrente...
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Passa a vida? Continua...
Com o tempo quem passa é a gente.
Mas, vida, se nós passamos,
de onde vimos? aonde vamos?
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Antonio Francisco da Costa e Silva — O Último Poema
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Soneto XVII
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Grato pelo mistério dessa graça
De ser paisagem neste olhar que chora,
Nas alamedas minerais de agora,
Sei que o tempo é sonhado e a vida passa.
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Que o segredo da sombra se refaça
Nas páginas de gelo de uma aurora;
Partimos, rumam passos morte afora,
Ficam somente os olhos na vidraça.
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Grato pelo mistério deste início,
Ser ondas, ser a praia, ser procura,
O sol e a treva, o fogo e o precipício.
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Sinto partir, acordo, sou um barco,
Mas quando encontro a mão que me segura,
Naufrago além das flechas de meu arco.
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Paulo Bomfim - Sonetos, l959
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Legenda dos Dias
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O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...
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As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada"...
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Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;
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E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...
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Raul de Leoni(1895-1926)
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