segunda-feira, 17 de novembro de 2008

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POEMAS DA MADRUGADA
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PEDRO LYRA
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Piscinas naturais praia de Flexeiras - Ceará
( Foto de Alex Uchôa)
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SONETO DA CONSTATAÇÂO XLVI
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Fidelidade:
à voz do amor - consumo
consumiu-se também esse tesouro.
Era uma condição essencial
e a descartaram
como um empecilho.
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O objeto não é seu próprio ego:
é o parceiro.
Fiel consigo mesmo
sempre se foi
e mais
na expectativa.
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O desafio é ser fiel ao outro
pra quem não precisa
- em paz -
viver seu bem.
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Se ama
não há chances para aventuras;
se já não
não há chance para convívio.
Sobre cinzas
por que seguirem juntos?
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Se não forem fiéis
não são amantes.
Nem isto é mais amor:
- é hipocrisia.
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Fortim - Ceará
( Foto de Alex Uchôa)
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SONETO DA CONSTATAÇÃO XLIV
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Só na promiscuidade dos primórdios
houve amor em paz
e sem complexos.
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Puro gozo:
nem posse
nem disputa
nem trauma de que fosse diferente.
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Após dar um nó vesgo
nas vontades
purgamos o silêncio
dos sentidos:
submeteram o desejo das pessoas
às determinações de algum cartório.
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Derretemos o nó nas madrugadas.
Mas sem nem bem saber dosar a chama
fez-se o pior:
queimamos a conquista.
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E voltamos ao caos de uma era morna
sem o abrigo de luz da natureza.
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Eis que hoje somos soltos e carentes.
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Lagoa do Iguape - Ceará
( Foto de Alex Uchôa)
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SONETO DA CONSTATAÇÃO XLIII
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O amor só foi vivido em natureza
quando nem bem havia sociedade.
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Todos eram de todos
- de ninguém -
livres
de propriedade e de ciúme
sem receio
de falta
nem de perda.
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Mas quando
( em torno)
demarcou a terra
e no louro do trigo
só viu ouro
ele cravou o seio do exclusivo:
para ter a certeza
dos herdeiros
trocou o beijo
por uma aliança.
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Foi essa imposição sobre o desejo
que gerou a volúpia de negá-la.
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Hoje
de novo
todos são de todos
mas não por condição:
- por impotência.
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Coqueiral de Mundaú - Ceará
( Foto de Alex Uchôa)
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SONETO DA ADVERTÊNCIA II
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Eu voltava do limbo
ainda em brasa
e procurava o mundo
ainda em treva
quando
em forma de brisa
me envolveste
quando
em forma de alumbre
me acordaste.
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O espaço e o tempo se reconstruíram
e a vida reintegrou-se
no meu ser.
Eu vinha de um porão de lava e sombra
e agora
o que fazer
com este prodígio?
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Nada tenho com que retribuir-te
porque tudo que tenho é o que me deste.
Talvez amor.
É pouco.
Mas acolhe-o
e nesta concha o mundo se refaça;
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E pois vou te viver
com a tua vida
tu poderás me amar
com o meu amor.
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Pria da Lagoinha - Ceará
( Foto de Alex Uchôa)
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SONETO DA ADVERTÊNCIA
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Ama.
Queres amar.
Pois então ama
desde que cumpras certas condições.
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Uma
antes de todas outras:
que ela
possa te amar também
e que não sonhes
que esse amor vá além do teu desejo.
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E não vejas de um céu o que é do chão.
E não julgues eterno o que é da hora.
E não forjes o gume em que te firas.
E não lhe queiras mais do que a ti mesmo.
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Que não te prives
do que mais persegues
e não te inflijas
o que mais recusas.
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E que não ames
nunca
ao ponto extremo
de já não mais poder deixar de amar
nem de não mais poder viver sem ela.
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Poemas extraídos do livro
DESAFIO
uma poética do amor
3ª Edição
Editora UFC
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3 comentários:

prafrente disse...

Que coisa mais linda...

Locais paradísiacos.Adão e Eva teriam gostado de viver aí...até chegar a serpente enganadora enrolada na macieira...imaginação sociológica...perdão, queria dizer teológica...

Encontrou por aí a selecçao portuguesa depois dos 6-2 frente ao Brasil?

Estações da Vida disse...

Olá, José. E haja imaginação!Essa estória da maçã vai longeeeeeeeeeeee! Rrsrsrsr. Na verdade, aqui na minha terrinha há locais paradisíacos; quem aqui vem logo se apaixona e não quer mais voltar...E o futebol brasileiro? Já eraaaa!!!! Somente um técnico como o Felipão poderá salvá-la da bancarrota. Venceu Portugal porque era amistoso, os jogadores queriam se poupar, só isso. Abração.

direitinho disse...

As paisagens e os locais são únicos.Toda a beleza está para alem do nosso olhar de querer ficar e morar nesses paraísos.

Os poemas são arte de quem sabe amar e transpor em verso tanto desejo e vontade de ser livre no amor que nasce e se vai em liberdade como um grito nascido na alma.

«E não vejas de um céu o que é do chão.
E não julgues eterno o que é da hora.
E não forjes o gume em que te firas.
E não lhe queiras mais do que a ti mesmo»