segunda-feira, 11 de maio de 2009

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Pintura de Renso Castaneda
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ASSOMBROS
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Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
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Fora, não se dão conta os desatentos.
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Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
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Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
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Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
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Affonso Romano de Sant'Anna
(Lado Esquerdo do Meu Peito)
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Pintura de Esmeralda Deike
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O AMOR E O OUTRO
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Não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.
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Do meu jeito amo.
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
até com nojo.
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Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.
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Affonso Romano de Sant'Anna
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A Midsummer Nights Dream
Alexandru Darida
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CATANDO OS CACOS DO CAOS
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Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.
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Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.
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Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.
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Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.
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Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.
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Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.
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Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.
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Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.
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É um quebra-cabeça?
Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção
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Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fim
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Não é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.
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Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora.
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Affonso Romano de Sant'Anna
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Maiden Song
Emma Florence Harrison
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DO AMOROSO ESQUECIMENTO
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Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
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Mario Quintana
( Espelho Mágico )
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Pintura de Emma Florence Harrison
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EU ESCREVI UM POEMA TRISTE
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Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
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Mario Quintana
( A Cor do Invisível )
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BILHETE
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Se tu me amas,
ama-me baixinho.
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Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
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Deixa em paz a mim!
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Se me queres,
enfim,
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tem de ser bem devagarinho,
amada,
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que a vida é breve,
e o amor
mais breve ainda.
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Mario Quintana
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3 comentários:

direitinho disse...

Dormi e acordei numa sede de querer ter mais tempo para fazer tudo. Ler os poemas que nos vai dando e outros que procuro e que nos enchem de encanto.
Sinto quase vergonha de dizer que desconheço a maioria dos poetas.
Só não sinto medo nem vergonha de dizer que as mensagens são lindissimas e as construções poeticas fabulosas.
Bem haja.
Tente tambem dar-nos um pouco de si pois também tem sangue de poetas. Já deu provas.
O comentário do seu filho Domingos Sávio reforça aquilo que tambem eu penso.
Deixe aqui e sempre as suas Marcas de Passagem. Os outros poetas cada um poderá procurá-los.....
Não leve a mal este comentário.
Para terminar gostaria de lhe aconselhar uma poetisa actual no seguinte blogue:
VONY FERREIRA

Anônimo disse...

Olá, Luís. Você sempre tão gentil, tão amigo. Obrigada. Vou procurar os poemas da Vonny Ferreira, o.k? Costumo postar peomas que me tocam o coração, independente do autor. Quanto aos meus, tenho alguns, sim, e qualquer dia os postarei. Luís,gostei do seu poema. Aí estão os lados Yin e Yang da vida: as brisas suaves, calmas, que nos deleitam e as borrascas, que podem destruir sonhos e trazer desilusões. Beijinhos.

Sylvia Narriman Barroso

Uma aprendiz disse...

Que lindo esse poema.

Seu blog é um mergulho no mar das emoções.

Parabéns!

BOM DOMINGO