quinta-feira, 19 de março de 2009

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Soneto 17
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Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
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Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
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Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
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Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
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William Shakespeare

5 comentários:

Jaqueline Sales disse...

Lembro-me da última vez que ouvi a voz da minha mãe. Ela me dizia, ao telefone, que eu estava atrasada para o compromisso agendado em família - que teria sido a celebração de uma missa em homenagem aos familiares que
haviam falecido.


Sua voz era suave, maternal, tão carinhosa, que parecia mesmo estar se despedindo. Eu, sentindo que estava
de fato demorando no banho, na escolha da roupa, nos acertos com minhas filhas, disse-lhe que chegaria em poucos minutos.


Chegando à casa dos meus pais, meu irmão estava no portão aos prantos, dizendo que mamãe havia passado mal,
estava caída ao chão quando foi acudida, e por esse motivo foi levada às pressas para o hospital.
Por que será que os filhos pensam que seus pais são super-heróis? Que não adoecem, não morrem?


Quando soube que "mainha" havia falecido, minha tristeza era tão grande que não consegui derramar
uma única lágrima pela morte da mulher mais importante e inesquecível da minha vida. Meu corpo ficou tomado por manchas violáceas por vários dias, eu não conseguia dormir, nem deixar de pensar nela, estava deprimida e perdida em casa. E assim fiquei por vários dias até descobrir que essa dor nunca vai embora.

Jaqueline Sales disse...

A última vez que vi meu pai, ele estava deitado na cama do home care da unimed na casa da minha irmã. Seu olhar estava triste, perdido; o rosto amarelado e um pouco inchado; as mãos, pés e pernas estavam tão edemaciados que minavam água em toda a extensão do colchão. Estava sofrendo como poucos sofrem na vida.


Eu havia comprado um cd com as músicas das antigas marchinhas de carnaval e uma delas ele adorava:
touradas em Madrid. Pus a música, tentei cantar alguns trechos com ele, mas as palavras não conseguiam
sair de sua boca. Ele estava triste demais para cantar, para relembrar, e esse silêncio me fez travar o dialogo mais estranho que uma filha teria com seu pai. Disse-lhe que estava na hora de ir, que ele não se preocupasse. Também lhe disse que sabíamos o quanto ele era guerreiro, que não precisava se preocupar no que estava nos transmitindo, pois sabíamos que ele era o nosso maior exemplo de garra e de luta.
Estava na hora de ir embora.


Entrei no carro aos prantos após tê-lo visto por aquela última vez. Enquanto dirigia, lembrava de cada palavra dita, dos olhares, dos sentimentos que eclodiram naquele último encontro, da vida, da morte...


Poucos minutos depois do regresso à minha casa, ainda chorando, o telefone tocou. Senti imediatamente que
aquela ligação tinha algo a ver com papai. E tinha. Ele havia acabado de falecer.



Saudade é um sentimento feito de olhares, de toques, de palavras e de gestos que são eternizados
através de minutos que nós não permitimos que o tempo avance ou desfaça. Esses momentos são únicos, exclusivos, e o tempo não tem como apaga-los ou torna-los menos importantes e inesquecíveis. Esses momentos, essas lembranças, essa saudade, são nossos.

direitinho disse...

Nesta manhã clara e morna que já mostra um pouco de Primavera estive a ler estes poemas escolhidos como mensagens perfeitas nestes dias em que lembramos o Pai.
É o Amor, é o Mar é o tempo a passar. É o poeta que canta e encanta o nosso olhar neste acordar para a vida que se modifica e nos deixa a navegar em pensamentos,vivências e tantas coisas mais.

direitinho disse...

Obrigado Jaqueline pela mensagem/testemunho da partida dos seus. Quem poderá esquecer esses momentos...?
Recebi e dei notícias destas.
Sofri e chorei nesses momentos e acabei lutando por me libertar libertando os outros de os querer agarrar, ter e os querer conservar como se fossem meus.
A saudade nunca se apagará, mas até essa nós temos necessidade de transformar em jardim de flores ou de estrelas num firmamento celestial.
Obrigado.

Estações da Vida disse...

Keinha, minha Mana Adorada, são sentimentos difíceis de traduzir, de expressar...Você sabe que estava eu presente na passagem de ambos e, para mim, foram os dois momentos mais terríveis da minha vida...A perda é algo concreto, imponderável, infalível...Resta-nos a fé, a esperança, semearmos boas sementes nessa nossa vida ilusória, pois no final deixamos apenas PASSAGENS E MARCAS...Beijossssssss.

Sylvia Narriman Barroso
www.passagensemarcas.blogspot.com
www.sylvianarriman.blogspot.com