quinta-feira, 30 de outubro de 2008

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BAHIA: TERRA DA FELICIDADE!
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(Elevador Lacerda - Salvador)
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( Pelourinho - Salvador)
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A Bahia é celeiro de grandes poetas, como Castro Alves, Gregório de Matos, Capinan e muitos outros. Hoje vou homenagear dois poetas baianos que amo e admiro, duas pessoas lindas, dotadas de muita inteligência e sensibilidade. Confiram.
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( Geraldo Maia - 1951)
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GRITO

Só lhe restou gritar
ALTO
BEM ALTO
BEM ALTOOOOOOOOOOO!!!

ao experimentar pela primeira vez
a tortura da solidão quando lhe
cortaram o cordão umbilical

mas gritou em vão...

só que daquela vez
não lhe prenderiam como
LOUCO!

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SALDO

Casar é a melhor maneira de estar sozinho
Você não precisa vasculhar a noite
Na caça de uma cama ou de carinho

Nem precisa ouvir a mesma resposta
Que cada telefone grava só uma mostra
Do vazio que ocupa o coração

Casamento é solidão conjugada
Em drama e comédia farsa em dois
lados de culpa e carência

Casar é o amor ir ao supermercado
Você dá afeto de olho no abraço
Empresta um beijo na conta do afago

Quando ganho um trocado rápido
De orgasmo mal dá para os gastos
Com as juras de eterna fidelidade

Tudo documentado em contrato
Pré-datado de companhia mútua
Até que o tesão perca o saldo

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PARABELA

Você é bela rebela
As pétalas do coração
Terna entorna retorna
Contorna a escuridão

Que tange a noite pro dia
No que tange a rebeldia
Do sonho revolução
Parabela feito bala

Exorta o vírus da fala
Onde o amor se instala
A violência resvala

No mel de sua beleza
Favo de luz posto à mesa
Pro apetite do sol.

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A FELICIDADE É BELA

É tão belo quando chegas de dentro do silêncio
Para a infinita solidão de meus braços
É tão bonito quando irrompes inquieta
De dentro desse sonho azul sem janelas
Parece um pássaro depois de esquecer nas
Esquinas sua pétala de vento
Um pequeno mar solto no vazio que em
meus olhos tua ausência plantou feito um
cálice cego e mais belo ainda é quando chegas
Feito um milagre com asas
Em meu coração louco de espera
E tua entrega ecoa num clarão desnudo
É lindo quando teu corpo sussurra
No dialeto da ternura a tradução da saudade
Que meus dedos recitam verso a verso
Até que esteja escrito no inverso de tua pele
O poema estranho e selvagem
Da felicidade.
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Geraldo Maia Santos (Geraldo Maia) nasceu em Itabuna (BA), no dia sete de outubro de 1951. Começou a escrever aos seis anos e ainda se considera um aprendiz repetente da escrita numa sociedade ágrafa com forte ascendência oral. Tem nove livros publicados, seis de poesia (Triste Cantiga de Alguma Terra (esgotado) é seu livro de estréia, em 1978, Kanto de Rua (esgotado) (1986), Em Cantar a Mulher (esgotado) (1996), Sangue e palavra (1998), O chão do meu destino (2000), ÁGUA (2004) (esgotado) e dois de ficção (Atol ou o mar que se perdeu de amor por um farol (esgotado) (1991) e PUNHAL, prosa de cangaceiro (esgotado) (1992). Todos os livros editados de forma independente, exceto Sangue e Palavra, editado pelo Selo Bahia. E um de cordel: "CORDEL DO MENSALÃO". Recebeu menção honrosa no concurso de poesia do Banco Capital em 2004 participando da coletânea, Os Outros Poemas de Que Falei, junto com mais seis poetas. É casado com a artista-plástica e poeta, Márcia Santos, tem três filhos, Pedro Santos, José Flávio Maia Santos e Zag Bertim Maia Santos. Ex-aluno de engenharia civil (UFBA), jornalismo (PUC/RJ)), é ator, diretor teatral, editor, ambientalista, ecotrofoterapeuta, arte-educador, tendo atuado nos CEUs, em São Paulo, realizando oficinas de poesia e teatro. É um dos fundadores (em janeiro de 1979) do extinto, Movimento Poetas na Praça, que produziu e popularizou a poesia universal através de recitais diários nas praças da cidade, principalmente na Piedade, nas décadas de oitenta e noventa, reunindo os mais ousados, libertários, criativos e revolucionários poetas da Bahia, a exemplo de Zeca de Magalhães, Ametista Nunes, Antonio Short, Miguel Carneiro, Joelsom Meira, Douglas de Almeida, Eduardo Teles (também biógrafo de Castro Alves), Beto Silva, Gilberto Costa, Gilberto Teixeira, Jairo Rodrigues, César Lisboa, Edésio Lima, Semírames Sé, Margareth Castanheiro, Agenor Campos, Dorival Limoeiro (Dori), "Pica-Pau", e tantos outros que a praça acolheu e escolheu para enfrentar e vencer as trevas da ditadura militar mas que estão excluídos como criadores de literatura, momentaneamente, pelas trevas da intolerância (ditadura) acadêmica. Pertence à Escola Baiana de Poesia.

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http://www.jornaldepoesia.jor.br/gmaia.html
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SINTONIA

Bebendo dos teus olhos, o desfiar lasso da lua
Que, suspensa na luz, inclina à noite estrelada
Pelas frestas de uma fina flor solitária, seminua,
Adormecida à mercê de carícias entrelaçadas...

Atrás da fina flor perfumada, o azul estimula,
Prazerosa derrama de desejos, assim, refeitos
Sobre lençóis de cetim que o sonho dissimula
No teu corpo o oceano moreno do meu peito...

A vida discorre em nós, como fogaréu de entregas
Rasgo-me nos teus sussurros, abuso do vocabulário
Na noite crescente de desejos no azul da tua janela...

Faço-te desmistificações na essência da sintonia fina
Eu, apenas eu. Do meu quarto em toques refratários
Quero correr e estou colado no chão da tua esquina.
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Nelson Haroldo
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POESIA DA NOITE

Os dias gotejam, gotas de você,
gotas dos amores, sentimentos...
A poesia da noite,
rola como um alento:
Uma espécie de simbiose
entre o outono e as flores!
Flores da vida, girassóis do vale,
lírios do campo ao vento
ornamentando nossas noites...
São luzes dos açores
na réstia de uma estrela
em vasos orientais!
O amor nos diz, nos toca
e nos toma de paixão.
Por sentimento
a noite veste-se de desejos
e de carona invade nossos leitos...
Nem mesmo sabemos da solidão
e se existe o corpo solidão...
Espaços em branco, telas cheias
sintonizando, modulando desejos
nas dimensões exatas
seladas nas alquimias das noites!
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Nelson Haroldo
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MEU BARCO...

Chegou o meu barco arribado navegando pelas beiras
Vem por rotas desconhecidas em meio a penumbras.
Na proa, o mastro, o mais alto, uma enorme bandeira
Desfraldada tremeluzindo aos sóis o rosto da musa...

Na popa, outra bandeira içada carregando desejos
Reflete o brilho nos confins do horizonte cortejado
Em que eu me entrego no oceano dos teus beijos
Sem alfândegas, sem fronteiras e sem cadeados!

Mas, pelo sim ou pelo não, dentre, o sol e o luar
Eu me atiro e me jogo, eu salto e pulo por inteiro
Nas tuas águas livres suspirando o azul do mar
Do teu oceano em que adentro em segredo...

E permaneço em ti nas milhas traspassadas.
Marinheiro do amor eu sonho luas da tua vinha
Onde, bate o frescor das tuas brisas sopradas
No céu de fogo fazendo chamas em noite fria...

Bebendo do azul o meu barco aporta em teu porto
Todo perfumado de maresia, brisa e água salgada...
De dia ele tem o fulgor do sol se refletindo absorto,
De noite na abóboda ele tem luas dependuradas...

Suspensas na luz em derramas de caricias insidiosas
Sobre o leito dos dias, nuas, pelo beiral do teu mar
Numa aragem soprando chuvas de pétalas de rosas
Perfumando o horizonte, os teus olhos estavam lá...
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Nelson Haroldo

http://osibarita.blogspot.com/

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4 comentários:

http://elperroelocuente.blogspot.com/ disse...

Buenas. El perro hace su primera aparición de noviembre con anticonsejos de Drummond de Andrade, con Charles Baudelaire y un párrafo del matemático e historiador Denis Guedj que nos informa sobre las medidas que se utilizaban antes del sistema métrico decimal.
Podés hacer click en http://elperroelocuente.blogspot.com/
Saludos.
Jorge Aloy

direitinho disse...

Lindos poemas.Bela escolha. Nesta manhã fria aproveito o tempo para ler estas perolas desconhecidas.
O que mais me despertou foi o Saldo «Casar é estar sozinho
E ir ao supermercado
E um ganho Trocado
E gastar-se em saldo

Os poemas são bonitos mas a vida da-nos muitas voltas. No casamento tambem nunca estamos sozinhos. O amor não vem em saldos e nunca o podemos comprar em supermercados.
O Amor cultiva-se com respeito e doação. Com partilha e afeição.
O Amor tem que crescer todos os dias no nosso coração.

Vivian disse...

...olá linda!

a nossa cultura é linda!

encantei-me com este post,
como não poderia de ser.

bjus procê!

Anônimo disse...

Bela homenagem aos dois autores baianos, não sei se o autor das três últimas poesias é merecedor de tal honraria, pessoa simples que é, agradece pela bondade do seu coração em te-lo aqui.

Aliás, as poesias lhe pertencem mesmo, então, está no lugar certo.

Da janela dos teus olhos sorvo a seiva do sol
Refaço rumos nos debruns da tarde em desejo
E depois do amor, depois de macerado pelo amor
Voltarei à tarde, à noite para roubar-te um beijo...

bjs.
N